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Pesquisa com camundongos revela prejuízos causados pelo consumo de maconha na gestação humana

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Pesquisa registrou prejuízos à memória, reflexos, força muscular e coordenação motora no grupo de mães expostas à fumaça da Cannabis. Ilustração por: Fredy Alexandrakis

Publicado originalmente por Agência Universitária de Notícias (AUN) em 10/5/2017

Por Fredy Alexandrakis

 

Novo estudo realizado com camundongos na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ-USP) desvenda as consequências da inalação de maconha na gravidez sobre o desenvolvimento fetal. Dentre outras alterações, a pesquisa de mestrado de Sarah Benevenuto registrou, por meio de uma série de testes de comportamento, prejuízos à memória, reflexos, força muscular e coordenação motora no grupo cujas mães foram expostas à fumaça da Cannabis.

Embora a maconha seja a droga ilícita mais consumida por gestantes, os seus efeitos sobre o feto, até então, não eram claros — os resultados da literatura existente são, em grande parte, conflituosos. O experimento da FMVZ-USP se diferencia de outros já conduzidos pelo modo de administração da Cannabis.  Foi utilizada maconha proveniente de apreensão da Polícia Federal e a exposição se deu por meio de um sistema composto, basicamente, por duas câmaras interligadas: uma contendo os camundongos e outra onde se queimavam os cigarros de maconha. Esse método se aproxima do modo pelo qual a Cannabis é mais comumente consumida por seus usuários (inalação da fumaça), enquanto muitas das pesquisas já feitas sobre o assunto administram a droga via injeções de THC (importante princípio ativo da maconha) ou gavagem (alimentação forçada), o que também exclui possíveis efeitos de outros componentes presentes na fumaça que possam ser danosos aos fetos.

Essa exposição se repetiu por cinco minutos diários, do dia da implantação do embrião no útero ao dia anterior ao parto. A partir disso, metade das fêmeas foi eutanasiada e os fetos tiveram seu desenvolvimento avaliado. Percebeu-se um número maior de machos no grupo Cannabis, com menor peso corporal ao nascer. A outra metade das camundongas teve parto naturalmente, e os recém-nascidos passaram por uma bateria de exames testando reflexo e força muscular. Após 30 e 60 dias, atingindo idade jovem e adulta, esses camundongos voltaram a ser testados quanto à sua ansiedade, coordenação motora, capacidade exploratória e memória. Além dos já citados prejuízos registrados nesses testes comportamentais, observou-se, ainda, um efeito ansiolítico no grupo exposto.

Para Benevenuto, é possível imaginar que um experimento como este, se feito com humanos, apresentaria resultados semelhantes: “Os modelos animais são muito  utilizados em avaliações neurobiológicas e são uma ferramenta valiosa para a investigação de períodos críticos do desenvolvimento do cérebro humano. Por isso, testes comportamentais com animais podem complementar os estudos em humanos, uma vez que já foram encontrados paralelos na janelas de suscetibilidade a estresse ambiental ou materno. Então, eu diria que sim, você pode fazer essa extrapolação.”

O que acontece é que o organismo humano, assim como da maioria dos mamíferos e vertebrados, possui um sistema de receptores de canabinóides (compostos encontrados na Cannabis), chamado sistema endocanabinoide. Esse sistema se concentra em partes importantes do cérebro, e está intimamente relacionado com uma série de processos do desenvolvimento do cérebro fetal. Ao se consumir maconha durante a gestação, interfere-se diretamente nesses processos, impactando o comportamento e a emotividade do bebê.

Em seu doutorado, ainda em fase de elaboração, Benevenuto segue a mesma linha de pesquisa. Os cérebros dos fetos de seu último experimento foram coletados e devem passar por novos exames histológicos e biomoleculares. A doutoranda considera que mais estudos sobre o assunto devem se somar ao seu, em especial devido à controvérsia quanto à maconha, sua legalização e possíveis usos medicinais: “Existem vários mitos e tabus em torno do tema da maconha, e uma polêmica muito grande instalada — principalmente no Brasil, onde a maconha ainda não é legalizada. E sempre inspira calorosos debates sobre legalizar ou não, se faz mal ou não: várias questões que são interessantes, tanto pela questão social, quanto pela questão da saúde pública. [A pesquisa]  foi uma forma de tentar esclarecer”.