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Gambá-de-orelha-branca ganha protagonismo em estudo de anatomia

O animal, muito comum no Brasil, ainda não possui registros básicos na literatura biológica

 GAMBÁ ORELHA BRANCA FLICKRGambá-de-orelha-branca, também chamado regionalmente de Timbu ou Cassaco. Foto: Flávio Brandão 

 Fonte: AUN-ECA-USP, publicado em 10/11/2016

Por Laís Ribeiro        

 

O gambá-de-orelha-branca, marsupial brasileiro de ampla distribuição no país, ainda carece de literatura que forneça informações sobre o funcionamento e organização de seu corpo. Atualmente, os veterinários e demais profissionais de centros de reabilitação de animais silvestres tem de se basear em dados coletados de animais domésticos para tratar gambás e outros animais silvestres feridos ou doentes e devolvê-los à natureza.

Pensando nos problemas que a falta de conhecimento traz ao tratamento veterinário dos gambás, Bárbara Tavares Schäfer, doutoranda na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ), vem desenvolvendo sua tese em torno do estudo da língua dos animais.

A pesquisa envolve caracterizar músculos, células, papilas e outros componentes da morfologia lingual do gambá-de-orelha-branca, utilizando para isso a microscopia eletrônica de varredura (MEV) e a microscopia eletrônica de transmissão (MET). Enquanto a primeira analisa a superfície do material, formando uma imagem das saliências e depressões da superfície da língua, a segunda examina as estruturas intracelulares, como organelas, núcleo das células, entre outros.

Por que a língua? Um dos objetivos da pesquisa, além de registrar informações anatômicas sobre o animal, é também conscientizar outros pesquisadores e as pessoas no geral para a dispensabilidade do uso de animais vivos em pesquisa: a doutoranda pretende coletar o material orgânico que necessita de animais mortos em estradas. Como o epitélio da língua é queratinizado e tem mais chances de resistir a um atropelamento do que outros tecidos corpóreos, escolher esse órgão foi questão de estratégia. Ainda assim, Schäfer também procura conservar outras partes do corpo que encontra em bom estado.

Os resultados do estudo indicam um padrão para a morfologia lingual do gambá-de-orelha-branca em relação aos outros marsupiais do mundo. Para a pesquisadora, essa observação é bastante interessante à medida em que se constata uma manutenção na anatomia desses animais mesmo após a separação dos continentes. “É uma segurança a mais de que a descrição anatômica do gambá possa contribuir ainda mais para a de outros marsupiais.”


Gambás, ratos e cangambás
 

 Schäfer acredita que parte do motivo pelo qual a literatura sobre o gambá é tão incompleta é o preconceito que as pessoas têm em relação ao animal: “as pessoas têm um certo descaso com ele porque não tem aquele apelo ‘bonitinho’ e ‘fofo’”. Ele é, muitas vezes, confundido em aparência com ratos, devido ao focinho comprido e cauda longa, ou, por causa do nome, com o cangambá, conhecido pela cor preta e branca e por soltar um líquido de odor desagradável. A discriminação é, porém, infundada, já que não há registros de nenhuma doença exclusivamente disseminada pelo gambá que não possa ser transmitida por qualquer outro animal.

Por conta desses estereótipos, é difícil que as pessoas prestem socorro e encaminhem um gambá atropelado para tratamento veterinário. “Acho que é uma questão de conscientização”, comenta a pesquisadora. “Atropelou? Presta socorro. Os gambás são grandes disseminadores de sementes e importantes elementos para o equilíbrio dos ecossistemas”.

 

Nota da Assessoria de Comunicação da FMVZ-USP: A pesquisa teve a orientação do professor Ii-Sei Watanabe.