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Estudo com próteses dentárias oferece uma nova vida para animais selvagens

 

 

Foto: Roberto Fecchio

 

Fonte: Agência Universitária de Notícias (AUN) ECA-USP

Edição nº80, ano 49

Por Bianka Vieira - AUN ()

Ainda que seja um problema de pouca notoriedade e repercussão, traumatismos dentários são recorrentes, não apenas em animais domésticos, mas também naqueles que vivem em ambientes selvagens. Em função da má mastigação, distúrbios digestivos e sistêmicos revelam-se como possíveis desdobramentos.

Por se encontrarem em constantes disputas por alimento, território, posição social e até mesmo por parceiros sexuais, é comum que animais selvagens estejam ainda mais sujeitos a traumatismos dentários como, abrasão, desgaste e fraturas, além das doenças orais clássicas como doença periodontal e lesões reabsortivas. No caso daqueles que vivem em cativeiro, o estresse comportamental estimula o desenvolvimento de hábitos igualmente prejudiciais à dentição, como roer objetos, por exemplo. “Trabalho com odontologia de animais selvagens há alguns anos e vemos muitos problemas dentários, como as fraturas, que geram dor e dificuldade mastigatória”, diz Roberto Fecchio, doutorando pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP. (*Nota da Assessoria de Comunicação da FMVZ: O estudo teve a orientação do professor Marco Antonio Gioso, do Departamento de Cirurgia (VCI).)

 

tigre       Tigre siberiano com fraturas dentárias.                                         Foto: Roberto Fecchio

 

Motivado pela possibilidade de poder devolver os aspectos normais da mastigação, Fecchio tem trabalhado com a aplicação de próteses dentárias metálicas, através das quais tem proporcionado qualidade de vida e bem estar aos animais. “Este é um trabalho único no mundo. Apesar de existir alguns relatos de casos clínicos com próteses dentárias, esta é a primeira vez que se realiza um trabalho detalhado, embasado cientificamente e multidisciplinar.”

O especialista em odontologia animal explica que trabalhar com esses bichos possui muitas particularidades, considerando a manifestação clínica tardia das enfermidades e por sua periculosidade. “Eles exigem procedimentos anestésicos até para procedimentos simples. A dentição varia entre as espécies e, consequentemente, os problemas dentários também variam. Isso exige experiência, dinamismo e estudos constantes.”

123        Prótese metálica em leoa                                                             Foto: Roberto Fecchio

 

Apesar das mudanças político-econômicas atravessadas pelo país exigirem uma reestruturação do orçamento inicial, uma das maiores dificuldades descrita por Fecchio é a ausência de ensino da área na maioria das faculdades de veterinária do Brasil. Outro ponto concomitante são as exigências advindas do trabalho com espécies de diferentes táxons.

Nesse sentido, Roberto explica que, apesar da odontologia veterinária para animais domésticos ser bem desenvolvida, há poucos profissionais no mundo que atuam com odontologia em animais selvagens. Por ser um dos poucos com experiência na área, ele já foi convidado para atender animais em países como Paraguai, Peru, Colômbia, México, Chile e África do Sul.

 

Implantação das próteses metálicas

Ao trabalhar com a restauração, busca-se a implementação de características como conservação da estrutura do dente, força, biocompatibilidade, estética e baixo custo.

Em sua tese, Fecchio afirma que a escolha dos sistemas de reparação está ligada ao nível de habilidade do veterinário e resistência do material, mas que o ouro, níquel, ligas metálicas com base de cromo, vidro cerâmico, metalo-cerâmica e polímero de vidro são os sistemas de coroa restauradoras mais comuns.

Para o seu trabalho, em específico, foram utilizadas próteses unitárias metálicas do tipo Restauração Metálica Fundida (RMF) em animais da ordem Carnivora – gato mourisco, onças pintadas, onça parda e leoa – mantidos em cativeiro. Em um segundo momento, o estudo se propôs a analisar a permanência das próteses dentárias de forma detalhada.

Quadro

Os tratamentos odontológicos podem ter até 5 horas de duração, o que exige a presença de uma equipe multidisciplinar monitorando o animal o tempo todo. “Com animais selvagens, não conseguimos fazer um exame odontológico prévio. Assim, precisamos ter todos os materiais necessários a qualquer tratamento no momento da anestesia e, muitas vezes, precisamos adaptá-los”, conta ao relembrar de um caso em que precisou adaptar uma furadeira para tratar canal dos dentes de um hipopótamo.

Até agora, a técnica com as próteses mostrou-se eficaz em 14 dos 19 casos descritos. O procedimento demonstrou ser viável, resistente e de rápida recuperação para o animal. Para Roberto Fecchio, o resultado estético também foi satisfatório, devolvendo, assim, não só a função, como também a forma do dente.